A construção da ciência, como conhecemos hoje, surgiu através de diversos debates e reflexões propostas pelo estudo da filosofia, que até determinado momento da história era considerada base de todo o conhecimento. E, com o tempo, novas ideias e orientações foram surgindo, ocasionando a diferenciação do estudo científico.


O filósofo René Descartes, buscando um padrão e regularidade na forma de se produzir ciência, em 1637, ao escrever o livro “O discurso do método” marca o nascimento do método científico moderno. Esse método é um conjunto de procedimentos que devem ser executados para se chegar ao conhecimento científico.


Algumas pessoas, durante sua criação, já ouviram de parentes próximos que em dias de chuva com muitos raios, é necessário não ficar em frente à espelhos ou, até mesmo, tapá-los, caso contrário, poderiam ser eletrocutadas. Esse é um bom exemplo do que é considerado um senso comum, uma pseudociência, pois não há nenhuma teoria comprovada por trás desses argumentos, ou seja, não foi realizado um método científico para chegar a essa conclusão.



As etapas que devem ser realizadas para obter essa conclusão são:

1. Observação: os fatos devem ser notados de maneira organizada e sistemática;

2. Hipótese: deverão ser estabelecidas hipóteses através de questionamentos gerados pela observação e, tais hipóteses, devem ser específicas e passíveis de testes;

3. Experimentos: diante das hipóteses, são estipuladas previsões, que serão analisadas através da experimentação. Através dessa etapa é possível reformular ou descartar hipóteses;

4. Teoria/conclusão: após o acúmulo de evidências com os experimentos, há a formulação de uma teoria.


O método científico está presente, também, no dia-a-dia. Um exemplo: Um aluno, ao tentar estudar, notou que seu computador não estava mais carregando (observação) e se questionou sobre os motivos desse acontecimento. Primeiramente, supôs que a tomada não estava funcionando corretamente (hipótese) e decidiu usar outra tomada (experimentação), porém constatou que ainda sim o computador não carregava.

Em seguida, pensou na possibilidade de o carregador ter sido danificado (hipótese) e decidiu, então, comprar outro e fazer um novo teste (experimentação). Dessa forma, ele concluiu que o computador não estava carregando, pois o carregador tinha parado de funcionar (teoria).


É importante ressaltar que qualquer teoria, mesmo sendo considerada verdadeira, pode ser questionada e modificada, o que já aconteceu diversas vezes. Em outras palavras, o estudo científico não é imóvel, mas sim progressivo, ou seja, evolui com o passar do tempo. Dessa forma, as pesquisas podem ser replicadas e complementadas por outros pesquisadores, o que é importante, pois incentiva atitude crítica diante da realidade e aumenta o grau de complexidade e segurança do estudo.


Com a pandemia do novo vírus Sars-cov-2 se inicia a corrida contra o tempo para contê-lo e evitar um maior transtorno. Uma dessas corridas foi a competição internacional “Global Virtual Hackathon COVID19”, que possuiu como objetivo o desenvolvimento de sistemas ou aplicativos que auxiliem nesse combate.


Pesquisadores brasileiros desenvolveram um teste rápido, até cinco vezes mais barato que os convencionais, a partir de experimentos realizados com o zebrafish (Danio rerio). Foi injetada uma proteína viral de COVID-19, em fêmeas de zebrafish, em sessões de imunização, com o objetivo de produzir anticorpos plasmáticos. Após a reprodução, os anticorpos passados para os embriões foram usados para fazer uma fita diagnóstica.


Com o auxílio de um swab, a pessoa coletaria sua própria saliva e colocaria para reagir com os anticorpos de covid-19 presentes na fita. Um QR code está presente em cada fita diagnóstica e, ao ser lido por um aplicativo, mostra, rapidamente, o resultado do teste, sendo ele positivo ou negativo.



Atráves desse mecanismo é possível monitorar a incidência de corona vírus e notificar órgãos de saúde para que sejam tomadas as medidas necessárias.

.

Foram avaliados 600 projetos de 45 países distintos e a equipe de pesquisadores conquistou o terceiro lugar no Global Virtual Hackathon COVID19, que ocorreu de forma online.


Curiosidade: os peixes não precisaram ser abatidos para a obtenção dos anticorpos.





Veja como o aplicativo funciona: https://youtu.be/XisZ_nTrMNg

Fonte: Jornal da USP; zebrafishrapidtest.com.


No início do século XIX, o zoólogo Francis Hamilton iniciou o mapeamento de espécies de peixe de água doce, na Índia, aonde morou por 18 anos. E publicou sua monografia com registros de mais de 200 espécies, dentre elas o Zebrafish.


Na criação dos nomes das novas espécies, Hamilton gostava de levar em consideração como elas eram chamadas pelos nativos da região. Dessa forma, ele descobriu que o Zebrafish era referenciado como Dhani, dando então origem e inspiração ao nome científico Danio rerio (Imagem 2).


A Biblioteca Nacional virtual do Reino Unido oferece acesso a uma coleção de mais de 170 milhões de itens, que inclui artefatos de todas as épocas da civilização. Podemos encontrar lá a versão original digitalizada do caderno de campo de Hamilton, contendo tais informações e os primeiros relatos das outras novas espécies (Imagem 1). É possível, também, encontrar à venda na internet uma versão editada das anotações e ilustrações de Hamilton realizadas na época do mapeamento.


O Zebrafish é descrito por ele como sendo, em suas palavras, “insípido” e com “baixo valor econômico” (Imagem 2). Mal sabia o quão valioso e importante esse peixinho se tornaria nos próximos anos, não é mesmo?






O início das pesquisas com o Zebrafish




Na década de oitenta, o biólogo molecular e aquarista George Streisinger usava o fago T4 (virus que infectam bactérias) como sistema modelo de estudos e obteve grandes contribuições na decifração do código genético dessa estrutura.


Visando aplicar seus conhecimentos em um novo sistema modelo, mas dessa vez de um vertebrado, iniciou a utilização do peixe Zebrafish, já que era uma espécie pequena suficiente para manter um grande número necessário para estudos genéticos e grande o suficiente para fazer manipulações embriológicas.


Mesmo com muitas críticas, George descreveu, por quase 10 anos, o desenvolvimento morfológico e funcional normal do embrião de Zebrafish, além de técnicas de genética e de criação. Após sua morte, sua pesquisas continuaram sendo desenvolvidas por colegas de trabalho e o uso comprovado do Zebrafish se disseminou pelo mundo.



Referências:


- Biblioteca: https://www.bl.uk/about-us

- Peixes pequenos, grande ciência: https://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.0020148#s2

- Livro digitalizado manuscrito biblioteca: http://www.bl.uk/manuscripts/FullDisplay.aspx?ref=Mss_Eur_E70_A

- Sobre Francis: https://www.raysociety.org.uk/products/search-results/francis-hamiltons-gangetic-fishes-in-colour-edited-with-introduction-and-commentary-by-ralf-britz

- Venda do livro: https://www.nhbs.com/hamiltons-gangetic-fishes-in-colour-book

- História do George: http://www.uoneuro.uoregon.edu/k12/george_streisinger.html

- Livro digitalizado:

https://play.google.com/books/reader?id=myQOAAAAQAAJ&hl=pt&pg=GBS.PA1

1
2
Área de Histologia e Embriologia | Deptº de Biologia Animal | Inst. de Ciências Biológicas e da Saúde | © UFRRJ - 2020